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Eu não vivo sem celular


O apartamento não era nenhuma relíquia, talvez um dia fosse, não há pouco, aliás, muito pelo contrário, recentemente era habitado por sem teto que compartilhavam o pouco ou quase nada que tinha em comunhão, se abrigavam entre grandes madames de concreto que estavam anos e anos a tricotar um pouco das histórias de pessoas que ali passaram. Rugas e marcas de expressão eram naturais de uma vida longa e cheia de boemia e revoluções. Porém, o desgaste maior era a solidão, as lágrimas de suas edificações mostravam o desinteresse de seus descendentes com os olhos que tudo viram acontecer bem diante de seus pés.

Mas aqueles meses eram diferentes, os anos de solidão dos grandes senhores de São Paulo tinham acabado e com eles o teto dos sem teto.

Sentia-me um pouco culpado, já que acabara de comprar um desses apartamentos, recém chegado, assim como todos os outros moradores, via uma chance de reviver o auge daquelas ruas e travessas que só de caminhar por entre elas revivia um pouco do ar da velha boemia paulistana.

Estava compenetrado, deslumbrava-me com a grandeza da vista de meu apartamento do 17º andar, onde se via todo o parque do Anhangabaú e nele um mar de pessoas a transitar por entre seus jardins.

Era meados de outubro e o sol já dava sinal de cansaço e vagarosamente suas forças iam sucumbindo ao natural e sua queda devagar contrastava diante a pressa das pessoas.

E toda essa vista me fazia refletir, eu, um homem de 43 anos a refletir sobre a vida, sobre o corre corre das pessoas fincadas no concreto, onde a vida não existia mais, apenas suas vidas. A vida do consumo do hoje e do amanhã. Onde as pessoas se fixavam num anúncio de celular e sem querer tropeçavam em braços e pernas de sem tetos que outrora moraram em meu apartamento.

Será que esse vale é amaldiçoado? Já que o significado da palavra Anhangabahú é rio da diabrura e do feitiço. Não sei, só sei que esse feitiço é muito bem feito, porque não acontece só aqui, mas em todo o planeta, onde cada vez mais é batido novos e novos recordes de uso de internet e venda de celulares, mas o que poucos sabem é que junto com esses recordes temos outros que são batidos mas rapidamente, tal como a fome e a AIDS, esses sim estão moldando um mundo que logo logo não estará no chão do vale, mas em nossas familias.

No meio desse devaneio onde me encontrava, no qual as buzinas, sirenes e fanáticos pregando uma nova ceita ajudavam a esculpir esse cenário, escutei meu celular tocar, era uns amigos convidando a um concerto de ópera. Impressionante, do romantismo a realidade em milésimos de segundos, como se eu tivesse pulado pela janela e dessa queda saísse um grito incessante pra realidade.


"A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível".

Albert Camus

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