O apartamento não era nenhuma relíquia, talvez um dia fosse, não há pouco, aliás, muito pelo contrário, recentemente era habitado por sem teto que compartilhavam o pouco ou quase nada que tinha em comunhão, se abrigavam entre grandes madames de concreto que estavam anos e anos a tricotar um pouco das histórias de pessoas que ali passaram. Rugas e marcas de expressão eram naturais de uma vida longa e cheia de boemia e revoluções. Porém, o desgaste maior era a solidão, as lágrimas de suas edificações mostravam o desinteresse de seus descendentes com os olhos que tudo viram acontecer bem diante de seus pés. Mas aqueles meses eram diferentes, os anos de solidão dos grandes senhores de São Paulo tinham acabado e com eles o teto dos sem teto. Sentia-me um pouco culpado, já que acabara de comprar um desses apartamentos, recém chegado, assim como todos os outros moradores, via uma chance de reviver o auge daquelas ruas e travessas que só de caminhar por entre elas revivia um pouco do ar da vel...
Empreendedor, filósofo aos domingos, dissecador de conceitos, aspirante a treinador de basquete e aficionado por idiomas.